Chegamos a um ponto sem volta; ninguém consegue imaginar o dia sem o celular. Não é de se admirar, pois, desde o seu surgimento, esses dispositivos se transformaram de meras ferramentas de comunicação em um centro de controle quase completo de nossas vidas, tornando-se parte integrante delas. Nós os usamos para trabalhar, socializar, nos divertir e até mesmo para administrar nossas finanças e cuidar da saúde. Esses retângulos de vidro se tornaram uma extensão de nós mesmos, presos às nossas mãos e bolsos a todo momento, uma rotina diária indispensável.
Mas, como costuma acontecer com a tecnologia, nada dura para sempre. Assim como o smartphone engoliu tocadores de MP3, câmeras, dispositivos de navegação GPS, atlas, jornais e livros, um dia ele também poderá ser engolido, e sua era chegará ao fim em favor das novas tecnologias.

Isso não é apenas especulação. É uma visão ousada defendida por um dos maiores gigantes da tecnologia da atualidade, Mark Zuckerberg, fundador e CEO da Meta (antigo Facebook). Zuckerberg acredita que o domínio dos smartphones está chegando ao fim e que o futuro pertence a uma tecnologia completamente diferente: óculos inteligentes de realidade aumentada (RA). Essa parte de seu argumento é convincente, pois nada é perfeito até que se torne imperfeito e desapareça.
Então, o que deixa Zuckerberg tão confiante? Por que agora? E, mais importante, como seria o nosso mundo se sua previsão se concretizasse? Vamos nos aprofundar nos detalhes desse futuro controverso.
Por que agora? O segredo da grande aposta da Meta

O anúncio de Zuckerberg não surgiu do nada. A Meta investe dezenas de bilhões de dólares anualmente em sua divisão Reality Labs, responsável pelo desenvolvimento de tecnologias de realidade virtual (RV) e realidade aumentada (RA). Essa aposta gigantesca não é apenas uma aposta arriscada; é uma estratégia deliberada para a transição de um "mundo de telas" para um "mundo de integração digital perfeita com a realidade". Ou seja:
De olhar para uma tela a viver dentro dela
A ideia básica é simples: em vez de ter que tirar um dispositivo do bolso, abrir um aplicativo e olhar para uma pequena tela para ver informações digitais, e se essas informações aparecessem bem diante dos seus olhos, integradas ao mundo real?
Esta é a essência da realidade aumentada. Imagine caminhar por uma rua desconhecida e, em vez de olhar o mapa do seu celular a cada minuto, setas direcionais aparecem "flutuando" na rua bem na sua frente. Imagine conversar com alguém que fala outro idioma e uma tradução instantânea das palavras dele aparece ao lado ou na frente dele, ou até mesmo ouvir a tradução diretamente através dos fones de ouvido do headset, nas hastes dos óculos.

Essa conveniência e velocidade do acesso "sem as mãos" à informação é o que a Meta aposta. Ela espera que as pessoas abandonem gradualmente o ato de tocar e deslizar em seus celulares em favor de um mundo onde os espaços digital e físico se interconectem perfeitamente.
Projetos Secretos da Meta: De Orion a Ray-Ban

Mas não se trata apenas de teoria. A Meta está trabalhando arduamente em projetos ambiciosos como o Orion, um headset avançado de realidade aumentada que pretende substituir completamente os celulares. Mesmo antes desse objetivo final ser alcançado, já vimos passos iniciais, como os óculos inteligentes Ray-Ban Meta, que permitem tirar fotos, gravar vídeos, ouvir música e até interagir com um assistente de voz com IA — tudo sem precisar tocar no celular.
Obstáculos no caminho: por que ainda não substituímos nossos telefones?

Se a ideia é tão brilhante, por que nem todo mundo usa óculos inteligentes hoje em dia? A verdade é que o caminho ainda é longo e cheio de desafios, alguns técnicos, outros sociais. Aqui vão alguns detalhes:
Desafio técnico
A duração da bateria é o maior obstáculo. Para que os óculos sejam úteis, eles precisam funcionar por longas horas. Mas reunir uma bateria potente, um processador rápido e telas delicadas em uma armação pequena sem superaquecimento é um enorme desafio de engenharia. Poucas pessoas aceitariam um dispositivo que precisa ser carregado várias vezes ao dia.
Os óculos também precisam ser leves e confortáveis o suficiente para serem usados o dia todo. Os primeiros modelos costumam ser pesados ou volumosos, o que é impraticável para o uso diário.
Além disso, os visores integrados devem ser nítidos e claros o suficiente para exibir informações sem forçar a vista, algo que a tecnologia ainda não conseguiu atingir perfeitamente.
barreira de aceitação social

Para a maioria das pessoas, a aparência é tão importante quanto a funcionalidade. Se os óculos parecerem estranhos, "robóticos" ou atraírem atenção indesejada, o usuário médio não os usará. Os óculos devem, antes de tudo, parecer "normais" e elegantes.
Tecnologias avançadas de realidade aumentada ainda são caras. Para que ocorra uma adoção generalizada, elas precisam ser acessíveis ao consumidor médio, o que pode levar anos.
Como lidaríamos com alguém usando óculos que pudessem estar "gravando" tudo o que dizemos e fazemos? Isso abre um novo capítulo no comportamento social que levará tempo para evoluir, assim como aconteceu com os smartphones em seus primórdios.
Maior preocupação: privacidade e segurança
E aqui chegamos ao ponto mais sensível. Se óculos inteligentes são capazes de ver e registrar tudo o que você vê e analisar constantemente o mundo ao seu redor, o que acontece com a nossa privacidade? E os meus dados? Empresas como a Meta saberão todos os lugares que visitei, todas as pessoas que conheci e tudo o que observei? Isso, sem dúvida, acontecerá, de uma forma ou de outra.
E se seus óculos forem hackeados? Um hacker pode literalmente ver o mundo através dos seus olhos.
As leis e salvaguardas regulatórias serão capazes de acompanhar esse rápido desenvolvimento na proteção ao consumidor?
Essas questões não são secundárias, mas estão no centro da discussão sobre o futuro dessa tecnologia.
Como o nosso mundo mudaria se os óculos inteligentes fizessem sucesso?

Vamos recuar um pouco e imaginar que essa tecnologia amadureceu. Como nossa vida cotidiana mudará?
◉ Na navegação, você verá instruções ao vivo na estrada e informações de trânsito em tempo real.
◉ Na comunicação: suas mensagens aparecerão no canto da sua visão, e você poderá ver um “holograma” da pessoa com quem está falando.
◉ No trabalho: Um cirurgião pode ver informações vitais de um paciente enquanto realiza uma operação, e um engenheiro pode ver plantas 3D do dispositivo que está consertando ou do edifício que está construindo.
◉ Na educação: os alunos podem ver modelos de dinossauros ou do sistema solar vagando pela sala de aula, ou ir a esses mundos e interagir com eles virtualmente.
Mas Zuckerberg vai além, afirmando recentemente que a IA incorporada nesses óculos criará uma “lacuna cognitiva”. Ele acredita que “aqueles que não usarem óculos inteligentes no futuro ficarão para trás mentalmente”, pois perderão o acesso imediato a um assistente inteligente que entenda o contexto do seu mundo real.
Terremoto no Vale do Silício: A Nova Corrida Armamentista
Essa potencial mudança não afeta apenas os consumidores; ela ameaça redesenhar o mapa de toda a indústria de tecnologia. A Meta não é a única participante dessa corrida. A Apple, a gigante maior, entrou na disputa com seu caro headset Vision Pro, que se concentra em "computação espacial" e integra realidade virtual e aumentada.
Claro, não podemos ignorar o outro gigante, o Google, que está trabalhando discretamente em seus próprios projetos de realidade aumentada, aproveitando seu sistema operacional Android e sua longa experiência em inteligência artificial (todos nos lembramos de sua primeira tentativa, o Google Glass).

A Samsung e outras empresas também entraram na corrida e estão investindo no desenvolvimento de telas e dispositivos concorrentes.
As empresas que dominam o mercado de smartphones hoje podem de repente se encontrar em uma posição difícil, enquanto empresas de software e plataformas como a Meta correm para criar o novo “sistema operacional” que controlará nossas vidas.
O futuro não é amanhã... mas quando?

A maioria dos especialistas, incluindo o próprio Zuckerberg, concorda que essa transformação não acontecerá da noite para o dia. Estamos falando de um cronograma que abrange a próxima década. As previsões indicam que o período entre 2030 e 2035 pode ser o verdadeiro ponto de virada.
No entanto, há outro cenário mais realista a curto prazo: o telefone não desaparecerá completamente, mas seu papel mudará.
Em vez de ser a "interface" principal, ele pode se tornar o "motor" ou "cérebro" que fica no seu bolso, fornecendo aos seus óculos inteligentes, relógio inteligente ou alto-falante inteligente poder de computação e conectividade com a internet. Ele se transformará de um "centro das atenções" em um "centro de suporte" oculto.
A visão de Mark Zuckerberg sobre o fim da era dos smartphones é um lembrete claro de que a tecnologia nunca para de evoluir. Óculos inteligentes, equipados com realidade aumentada e inteligência artificial, representam a próxima grande revolução, prometendo mudar radicalmente a maneira como interagimos com o mundo.
Enquanto a Meta, a Apple e o Google correm para construir esse futuro, desafios significativos permanecem, principalmente em relação ao preço, à duração da bateria e, mais importante, à privacidade.
O smartphone pode não desaparecer amanhã, mas seu papel como rei reinante da tecnologia pessoal começa a enfrentar uma ameaça real. A questão agora não é "se" essa mudança acontecerá, mas "quando" acontecerá e quem a liderará.
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